sábado, 29 de agosto de 2009

Liberta


Não posso voltar assim! Não vai ser bom para mim reviver tudo aquilo outra vez. Já custou o suficiente e ele não vai continuar lá. Talvez ele realmente nunca tenha existido. Talvez tenha sido um fio de luz que escapou durante um eclipse ou então uma espécie de fantasia criada pela minha falta de afecto. Mas eu tenho tudo, a mediocridade descreve-me na perfeição. Será que foi por isso que ele aqui apareceu? Para curar a minha carência. Mas se sim porque partiria mais tarde o meu anjo invocado se o seu propósito vital era destruir a minha infelicidade. Ao partir, apenas deixou um buraco no meu peito, que ameaça desabar sempre que inspiro. Eu posso tentar impedir o meu corpo de desmoronar, mas interiormente essa força parece não surtir efeito algum. A minha sanidade menta desvanece como uma nuvem no céu. Cada uma das minhas forças acaba por cessar-fogo e cair derrotada no chão como uma folha no Outono. Para quê lutar se já sei como vai ser o futuro? Por vezes gostava de me tornar catatónica, no mínimo esses não parecem sofrer. Não sentem simplesmente. Foram completamente desprovidos de todos os cinco sentidos. A meu entender isso até prova ser positivo, no meu caso, visto que cada vez que olho para a janela o lembro a entrar por ela a meio da noite, cada vez que entro na cozinha o relembro a agarrar-me pela cintura e a tomar-me nos seus braços esmagando os seus lábios contra os meus. Cada vez saiu de casa imagino o seu carro reluzente rosnando de impaciência. A minha vida rege-se por lembranças e dor. Valerá a pena continuar? Se nem num futuro me imagino feliz, porquê fazer questão de abrir os olhos todas as manhãs? Tentar pensar e raciocinar quando não estou sozinha é difícil. Tentar saber quando devo forçar um sorriso ou uma expressão entusiasta ou por vezes penosa é a cada dia que passa mais complicado e impossível. Comer, beber, dormir, cumprir as rotinas diárias é para mim desnecessário. Apenas a água quente sobre a minha pele fria me faz esquecer por momentos a vida que levo. Se calhar era bom para mim sair desta cidade! É muito pequena, demasiado pequena. Todos se lembram de mim e do meu largo sorriso de felicidade quando ele estava comigo. Devia simplesmente mudar-me, fugir, começar de novo num local onde em que ninguém me conhece. Mas temo que assim eu me esqueça realmente dele. Isso é impensável, imperdoável! Viver sem as minhas memórias é desenxabido. Não poderia suportar algo assim, tão vazio. A minha vida antes dele parece-me desfocada. Não me recordo de nomes nem de pormenores.

Então vou saltar, sim saltar para sentir o ar, a adrenalina, a velocidade como ele tanto amava e a doce lembrança sem o recheio de dor. Libertei-me de vícios, materialismos e sonhos. O que interessa é ele, única e exclusivamente. Se saltar realmente, talvez encontre finalmente o meu anjo branco e ele me carregue de novo nos seus braços. Se foi Deus que mo enviou obrigada. Vou agora ao teu encontro amor, espera por mim. Sempre e nunca. Fica e vai.
FP

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Consciência


O que fazer quando voltas do teu refúgio e o mundo que deixaste para trás já não é o mesmo? Fugiste durante uns momentos mas mesmo assim a vida conseguiu apanhar-te. Encurralou-te num beco lamacento e colou-te uma faca à garganta, sendo assim o teu fim cada vez mais iminente. A vida estava tão perfeita querida, tudo flores e passarinhos e as nuvens eram rosa de algodão. Como é que tudo passou da magia incandescente para este final negro e escurecido, amor? Gostava de ajudar, verdade que sim. Mas por vezes acho que devias resolver tudo sozinha! Era melhor para ti, acredita que sim. Devias esquecer a hipocrisia e a superioridade e encarar a real vida que tens. Sim, podes ser alguém importante, popular até, mas isso não te paga as contas, como já deves ter reparado. Docinho, devias trabalhar um pouco mais para encarares os problemas de frente e realmente resolvê-los. Sabes que pôr os teus problemas dentro de uma caixa de plástico transparente forrada com papel de embrulho de prendas passadas, não ajuda… Deixa-la esquecida num canto do teu sótão poeirento com outras antiguidades por cima dela a ganhar altura não vai durar para sempre. Um dia, os teus problemas vão ganhar mãos e pés, conseguir sair da caixa, descer as escadas íngremes que levam ao andar inferior, abrir a porta do teu quarto sem ranger, subir para a tua cama com pezinhos de lã e acordar-te! E nesse momento poderá ser tarde mais fofi, poderás não conseguir afastar aquelas mãos da tua boca para que possas mais uma vez respirar. Nesse momento vais cair numa escuridão tão imensa que não vais nunca mais ter a força para sair. ‘Too late!’
Agora bebé, se preferes optar pelo Plano A, mais simples quero eu dizer, eu apoio-te! Vá linda eu ajudo-te a levantar e fazeres um plano para resolveres os tais diabinhos.
Conta-me então o que te levou a cair nesse desespero e depressão. Quem te largou quando estavam a sobrevoar o oceano pacífico e te largou para te deixar morrer afogada na parte mais funda e remota do oceano escuro? Será que foi isso que aconteceu? Ou foi, talvez, alguém que te levou num passeio sobrenatural e esplêndido e de repente disse que te ia deixar! Deixou todo o encanto jorrar como sangue até desaparecer por completo e partiu. Simplesmente virou costas e partiu. Não, é óbvio que eu não sei do que estou a falar. Tens razão fofura, tu lá sabes o que te levou a apodrecer por dentro de tal forma a que não deixes mais ninguém entrar. Honestamente gostava que te abrisses comigo, mas se achas melhor não, então desculpa. Se alguma vez precisares de alguma coisa, um favor, por muito pequeno que seja, lembra-te eu estou aqui! Não que isso te importe muito. Devias deixar os outros ver o teu brilho. Caíste nesse desespero tão agudo e para quê? Até parece que esperas que ele te veja assim e volte para ti. Embora ouças a voz perfeita e cristalina dele, por vezes isso não significa mais nada. Sim, verdade, talvez estejas realmente a ficar louca. Alucinações? É capaz… Mas tens mais pessoas à tua volta, não só esse vulto negro que te envolve nos seus braços. E qual é a tua ideia de fazeres essas loucuras? Pôr a tua vida em risco só para ver se ele volta para te proteger como dantes fazia? Por favor, enxerga-te! Cresce e aparece criança. Se ele partiu por alguma razão foi. Se ele te disse “eu simplesmente deixei de te amar” talvez fosse realmente a verdade. Mas eu ainda gosto de ti querida, estou aqui para te apoiar. Deixa-o para trás e segue em frente. Sim, ele partiu-te em mil pedaços e depois? Nunca ouviste falar de super cola?
XOXO Filipa Pereira

domingo, 18 de janeiro de 2009

A borboleta


Uma borboleta muito colorida, muito leve, muito jovem. Cresceu numa pradaria com a sua família, amigos e outras borboletas. A vida delas não passava de passear e explorar, mas nem tudo era assim tão simples. A exploração para aquele grupo de borboletas incluía apenas a pradaria, nada mais que isso! As borboletas são muito medrosas, tinham medo de quase tudo. Insectos, vento, chuva, muito sol! Nunca conseguiriam viver numa situação de extremos. Tudo tinha de ser moderado. O clima, a comida, as conversas, a velocidade de voo. Mas esta borboleta não pensava assim, ela queria quebrar as regras e voar bem alto. Voar como nunca outra borboleta voou. Sempre tivera várias discussões com o grupo. Por muito que fossem seus amigos, nunca conseguiram compreender as suas opções tão únicas, tão próprias!
Então um dia, de noite, a borboleta fugiu. Saiu do seu cantinho baixinho, abriu as asinhas coloridas e compridas e voou! Foi em direcção ao nascer do sol. Ao vê-lo nascer, pousou numa flor e contemplou a vista tão acolhedora e calorosa!
Nesse momento, ali, sozinha, ela sentiu e saboreou, finalmente, a Liberdade! Dali viu o mundo sem limites, sem barreiras! Tudo o que poderia alcançar…
Provou o sabor da vida, e sabes que mais? Ela gostou! : D

A ervinha




Era uma vez uma ervinha. Esta vivia numa vasta planície verde e amarela, estava rodeada de flores amarelas, grandes e vistosas. A ervinha sempre se sentiu triste por ser diferente, não tinha amigos porque todas as restantes flores a olhavam de lado. Passava os seus dias triste e pensativa, pensando quando tudo aquilo acabaria. Não sabia, a vida era mesmo assim, nascíamos num certo e determinado local e morreríamos sempre ali nesse mesmo local. Todas as outras flores aceitavam sem questionar a sua vida e a forma como iriam morrer. Mas não a ervinha, ela queria lutar pelos seus direitos de viver e ser livre. Tinha um sonho, voar com o vento e chegar até à casa no cimo do monte. A casa no cimo do monte estava um pouco longe, mas mesmo assim a ervinha nunca desistiu de tentar imaginar como seria a vida de quem lá vivia. Imagina de uma forma tão forte que quase podia ouvir os risos das crianças que brincavam no quintal, os gritos da mãe que os chamava para jantar, os sons e os sorrisos da vida dos que eram livres.
Um dia, as flores amarelas, mais velhas começaram a agitar-se mas do que era costume. Ergueram-se e abriram as pétalas vistosas. Estavam lindas, a ervinha pensava para si " o quando eu gostaria de ser assim tão bonita e colorida". De repente viu alguém sair da casa do cimo do monte. Várias crianças se dirigiam para a planície a correr acompanhadas pela mãe. Ao chegarem, a mãe disse às crianças "procurem uma flor para levar para casa! Queremos um ramo bonito.". As crianças começaram a procurar as flores mais lindas, nenhuma olhava para a ervinha.
Num determinado momento, a ervinha olhou para a mãe e viu que uma menina pequena, tão inocente, estava agarrada à sua mão. Esta olhava o campo e de repente os seus olhares cruzaram-se. A menina agora apontava para a ervinha. Esta pensou que, provavelmente, estaria a troçar da sua fealdade, mas não poderia ser, a menina estava a sorrir para ela. Aproximou-se, disse à mãe "dente-de-leão!", sorriu para a ervinha e pegou nela. A ervinha estava confusa. Todas as outras crianças tinham optado pelas flores amarelas, mas esta menina pequena, tão linda, tão genuína tinha escolhido a ervinha. Ao pegar na ervinha a menina disse " És linda, branquinha", de seguida elevou a ervinha ao nível da sua boca, inspirou com força e soprou! A ervinha dividiu-se em sementes, pequenas sementes brancas que agora preenchiam o céu à sua volta. A menina disse "agora vão haver mais flores bonitas, tal como tu!" ! A ervinha agora feliz, percebeu finalmente que não era importante sermos exactamente como todos os outros, não era o mais importante seguir os comportamentos, porque um dia, alguém vai chegar, vai existir alguém no mundo, que vai sorrir graças à nossa pureza e, não por sermos diferentes, mas sim por sermos nos próprios!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A vida


Estava no topo da montanha, no local mais alto, não podia subir mais!

De repente, a neve começou a derreter e eu perdi o equilíbrio. Caí, comecei a rolar, desci a montanha. Batia nas rochas, abria a pele, sentia o sangue a escorrer, a cabeça a latejar e tudo a ficar preto. Deixei de ter noção do real e não sentia mais a dor. Agora era como se eu ainda estivesse no cume da montanha, o vento batia-me na cara, o meu cabelo esvoaçava e sentia aquele friosinho na barriga! Tudo estava lá, eu estava lá, tudo era perfeito:D

Caí, bati no chão!! Vi que já não me encontrava no cimo, no cume, no ponto mais mágico daquele mundo existente. Estava caída no chão, tinha chegado ao início da montanha, pessoas rodeavam-me e chamavam-me à razão, queriam que eu acordasse, para que podessem desinfectar-me as feridas, para me trazerem de novo à vida! Eu não queria acordar, queria voltar ao cume, mas não era possível. Não tinha força para subir e o sol já não batia no cume da montanha. Agora chovia torrencialmente, não via nada, a minha cara e mãos tremiam, o meu cabelo estava ensopado, os meus olhos ardiam. Queria bater com a cabeça e esquecer tudo, esquecer a subida, o cume magnífico, a descida repentina e o momento em que me encontrava.

Mas nada disso iria acontecer, a dor estava lá, o sangue não parava de escorrer pelo abdómen, pelas pernas. braços, corpo. Comecei a ofegar, o peito ardia. Num último esforço, elevei a parte superior do meu frágil corpo, olhei o céu e disse "Obrigada!"!! Caí! Fiquei ali, estendida no chão, inerte, morta, sem reacção.

Esta foi a vida!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

História de um rio


Sempre tive um rio mesmo à porta de casa, mas um dia ao chegar a casa vi que ele tinha desaparecido. Já tinha reparado em algumas diferenças na forma como ultimamente ele corria, mas não liguei. Fiz mal, cometi um grande erro. Pensava que ele iria ficar aqui comigo para sempre mas enganei-me. Agora penso será que ele vai voltar? Que apenas estava confuso? As respostas não vêem, por muito que eu pergunte, por muito que eu grite, por muito que eu chore, por muito que eu me questione. Não sei se vai voltar, mas penso que se cansou de aqui estar e mudou de terra, de local, foi procurar um monte pelo qual possa descer e descer sem que não ande ninguém atrás dele. Liberdade era o que ele queria, o que todos nós procuramos, mas eu tinha a minha liberdade com ele mesmo na minha beira, mas ele não pensava assim. Fugiu, correu para bem longe. E mesmo assim hoje em dia quando ele passa lá bem ao longe a correr bem rápido pelos montes vizinhos eu sinto dificuldade em olhar e em cumprimentar. Um dia, estava à janela e pus-me a pensar, o porquê de não ser capaz de ser como era dantes, muito antes de ele viver mesmo no meu monte. Encontrei a resposta, mas ao mesmo tempo percebi que afinal não era assim tão fácil "olhar e cumprimentar" porque doía. Não era fácil para mim, tudo isso, porque sentia falta de ouvir o som da água a bater nas rochas, dos animais que ele atraía, tudo isso me fazia sentir triste. Pensava em formas de esconder ou mesmo esquecer essa tristeza, mas também não havia forma. Todos os montes me diziam "Deixa que com o tempo outros rios viram", mas isso apenas que revoltava mais. Não queria outro rio, queria o meu rio, mas esse já estava demasiado longe para que eu tivesse possibilidade de o alcançar. Então eu chorei, mas chorei com muita força, deixei tudo sair, até que nada ficou. Apenas uma linda lembrança de um sentimento que por aqui passou (: