domingo, 24 de janeiro de 2010


Vou permanecer aqui deitada, a olhar para o vazio. Não me posso perdoar, mas vou ter de caminhar. A verdade é que depois de todo este tempo e depois de todas estas tristezas e injúrias, esta é a única vez que tiro tempo para realmente pensar sobre tudo o que se passou. Éramos tão perfeitos juntos e mesmo assim alguém, algum ser poderoso do Céu decidiu que não era justo para o mundo “nós” sermos tão felizes! Então pegou nos nossos fios fortemente entrelaçados e cortou-os! Quebrou todas as esperanças, sonhos, ambições que ambos tínhamos. Destruiu a nossa alma de tal maneira que não houve forma alguma de reparar o que éramos, o que tínhamos sido em tempos. Todos aqueles momentos felizes, repletos de paz e amor foram substituídos por dor, perda, mágoa. Mas não o posso culpar, nunca o farei! Prometi-lhe que me manteria a salvo no dia em que ele saiu da nossa casa com as malas feitas e um olhar de pura tristeza e arrependimento. Os olhos dele gritavam-me “Porquê? Eu amo-te tanto”… Mas ambos sabíamos que não poderíamos voltar atrás. Era o melhor para os dois. Aceitamos, partimos.

Mas eu lutei, nós lutámos e mesmo assim passo noites em branco a pensar o que é que correu mal. Qual foi a gota de água? Não consigo imaginar o que possa ter sido, pela razão que mais me dói, pela razão que faz doer ainda mais. O facto de não ser capaz de recordar os maus momentos, aqueles em que me fazia chorar, aqueles em que o queria fora daquela casa. Não eram só bons momentos, tenho noção de tudo, mas apenas recordo os maravilhosos momentos que me mostravam o quão importante era para mim, o quanto eu o amava. E neste preciso momento, deitada nesta cama, do meu lado, só chego a uma conclusão. Está frio aqui sem ele! Sinto a sua falta.

Um dia disseram-me que o mais importante era seguir em frente! Mas se sei que é ele o meu único futuro não posso deixá-lo partir. Tenho de dizer aquelas palavras que me esqueci de dizer enquanto o via partir com o carro, onde nunca mais passou.

“And I forgot to tell you I love you” Sarah McLachan

We fought, we loved, we lost, stand tall. Nós lutámos, nós amamos, nós perdemos, coragem. Pois tudo isto, todo este percurso foi, é e sempre será um motivo de orgulho. I survived!

domingo, 3 de janeiro de 2010

A mulher do Alpendre


Ele foi-se embora! Mas por muito que eu repita esta frase dolorosamente ao meu coração parece que eu própria não sou capaz de acreditar. Ele é perfeito, não pode ter ido. Disse que me amava… afinal era mentira, odiosa pessoa que me mentiu sem um único vestígio de vergonha no seu corpo esculpido pelos Deuses.

Nunca vou esquecer o som que fazia a chuva a cair lá fora, enquanto eu e ele permanecíamos abraçados no quarto. Num ninho de amor tão forte e seguro que nunca ninguém iria romper. Nesses momentos nada mais importava, apenas nós. Aquela palavra minúscula, que nas suas três letras carrega o fardo do maior sentimento do mundo, amor.

Talvez o problema tenha sido meu. Tantas possibilidades me causam revolta, por pensar que apenas um olhar, uma palavra, uma expressão tenham mudado todo o meu futuro de uma forma drástica. Deixando me então completamente quebrada, para o resto da minha frágil eternidade. Estou quebrada, sim, queimada interiormente, apagada, iludida com a possibilidade do seu possível, embora remoto, regresso.

Parva, sou igualmente, por cada vez que imagino na minha mente, nublada por esta mancha, a sua volta a casa, a este alpendre de onde desapareceu há ano, vejo-me radiante a recebê-lo de braços abertos prontos a abraça-lo e a perdoar tudo o que se passou no decorrer desde ano 2009. Todas as noites passadas em claro, todo o álcool, todos os comprimidos ingeridos em demasia, todos os empregos perdidos, amigos, o próprio apoio dos meus familiares, a perda da vontade de viver, o olhar vazio que se tornou a minha característica mais marcante. Apesar de todo o sofrimento que tende a permanecer intacto, enquanto as memórias dele naquele baloiço decorativo, na sala, na cozinha a preparar os seus chás de jasmim, no meu quarto a dormir perfumando o ambiente do nosso ninho, tornam-se cada vez mais vagas e desfocadas.

O futuro nada fará, nada mudará. O presente será. E o passado ficará.

“I was broken”

Filipa Pereira

3/01/10