Hoje percebi que comecei a ouvir vozes. Hoje apercebi-me que estava a perder a pouca razão que ainda tinha conseguido sobreviver ao meu abalo. Senti-me triste, perdida. Não sabia o que fazer, eram conversas. Mas a voz dos meus receptores eram pouco nítidas, pouco reais. Só a minha falada em voz alta se ouvia. Não via nada de irreal. Via o local real onde me encontrava. Percebi que o meu desejo pelo irreal se estava a tornar maior. Maior do que era suposto. Deveria por um fim a tudo. Devia carregar na pausa. Estará isto a tornar-me num ser ainda mais infantil, ou será o contrário? Estarei a tornar-me numa adolescente de meia idade. Estarei a envelhecer mais depressa, a perder a esperança de que realmente ocorra algo que
mude drasticamente o plano em que vivo, que cheguei ao
ponto em que tento criá-la por mim própria. Tento dar-
lhe vida dentro da minha cabeça. Que triste, que deprimente. Que engraçado. E riu ao pensar nisto, vezes sem conta. Acho estúpido! Acho desenxabido. Se ao menos toda essa irrealidade podesse tornar-se mais real. Talvez se eu visse e ouvisse tudo o que acontece e tudo o que projeto na minha mente, sem pormenor. É que neste preciso momento, é me complicado encontrar nexo para o que faço, para o que crio. Se eu tivesse, uma espécie de alucinação visual e ouvisse perfeitamente as vozes das minhas cristalinas personagens, talvez podesse substituir a minha vida real por elas. Podia continuar a estudar, a comer, a viver normalmente. Mas teria sempre a pessoa número 1 ao meu lado, como um amigo imaginário. Seria como a Izzie Stevens na série "Anatomia de Grey", quando começa a ver o seu falecido marido. Esta mantém a sua vida, o seu emprego, os seus amigos. Mas com o Denny ao seu lado, é 1 ponto para ambas as partes. Realidade- 1 PONTO; Irrealidade-1 PONTO. Mas penso que preferiria por de parte o pequeníssimo facto da Izzie ter um tumor cerebral mortal e inoperável. Essa parte não me importaria de passar. Também porque (e nem acredito que estou a admitir isto), tenho medo de não saber quem iria optar. Que lado iria optar! Se a minha realidade com os meus amigos e a minha vida que tenho relatado. Ou se a minha feliz irrealidade, ainda que por breves momentos. Teria aquela parte lá, pronta a envolver-me num abraço tão apertado que me faria sentir que estava tudo bem. Que o mundo era perfeito. Depois, iria para o céu, o paraíso. Ele acredita nisso, nesse mundo superior. Ele seguir-me-ia sem dúvida. Porque ambos seriamos a perfeição do mundo do outro. Seriamos o mais importante, aquela coisa que se temos, somos incapazes de abdicar. É demasiado nossa, faz parte. Acaba por tomar conta de tudo. Não deixa mais prioridades. Nada a não ser ele!
O caça pesadelos não está a funcionar. Senti-me de novo atacada, esta noite. Encontrava-me na minha realidade. No meu bairro. Ouvia a sua voz a chamar-me com o seu tom aveludado. Corri na sua direcção, via a sombra dele sumir, sempre que quase o alcançava. Encontrei-o perto de um grande eucalipto. Lembrei aquela zona, como uma mata que se encontra perto da minha casa de infância. Olhou-me nos olhos com uma expressão de raiva, não a reconheci. Tentei alcança-lo, desta vez não se esquivou. Apenas me desviou a mão, com uma expressão de nojo espelhada no seu rosto. Deixei caí-la, sem força, ao lado do corpo. Abriu a boca, suspirou de impaciência, enebriando-me com a sua visão, e disse:
- Não és tu! Estás errada, não és tu quem eu chamava. Eu nem sei quem tu és!
Estas palavras apanharam-me de surpresa. Não esperava este tipo de reacção da sua parte. Soltei um soluço, ao deixar cair uma lágrima solitária. No mesmo intante, limpei-a. Encarnei uma expressão dura, forte, embora magoada. Raivosa até, senti-me traída.
O seu olhar desviou-se, voltando a correr o horizonte com os olhos. De repende, sorriu com um olhar enternecido. Estendeu a mão em direcção ao vazio. Subitamente, um vulto aproximou-se. Alguém diferente. Um mulher pequena, cabelo preto e curto, uns olhos verdes penetrantes. Dirigiu-lhe um sorriso, dando-lhe a mão, não me dirigiu um olhar sequer. Como se eu nem sequer me econtrasse lá. Estavam no mundo encantado. Tal como devia ser o amor, tal como eu o imaginava.
- Estive muito tempo à tua espera! Finalmente chegaste. - declarou a mulher com uma voz suave e carinhosa, aproximando-se dele.
- Peço perdão, minha senhora. Nunca foi minha intenção deixá-la em tal ansiedade. - respondeu com a sua voz firme e cavalheiresca.
Então, de mãos dadas, caminharam em direcção à escuridão da floresta. Tal como um verdadeiro final feliz. Só não era o meu.
Acordei assustada, erguendo-me num salto, respirando de forma ofegante. Arranquei o caça pesadelos do alto da minha cama, pensando "Fui tão roubada!".
mude drasticamente o plano em que vivo, que cheguei ao
ponto em que tento criá-la por mim própria. Tento dar-
lhe vida dentro da minha cabeça. Que triste, que deprimente. Que engraçado. E riu ao pensar nisto, vezes sem conta. Acho estúpido! Acho desenxabido. Se ao menos toda essa irrealidade podesse tornar-se mais real. Talvez se eu visse e ouvisse tudo o que acontece e tudo o que projeto na minha mente, sem pormenor. É que neste preciso momento, é me complicado encontrar nexo para o que faço, para o que crio. Se eu tivesse, uma espécie de alucinação visual e ouvisse perfeitamente as vozes das minhas cristalinas personagens, talvez podesse substituir a minha vida real por elas. Podia continuar a estudar, a comer, a viver normalmente. Mas teria sempre a pessoa número 1 ao meu lado, como um amigo imaginário. Seria como a Izzie Stevens na série "Anatomia de Grey", quando começa a ver o seu falecido marido. Esta mantém a sua vida, o seu emprego, os seus amigos. Mas com o Denny ao seu lado, é 1 ponto para ambas as partes. Realidade- 1 PONTO; Irrealidade-1 PONTO. Mas penso que preferiria por de parte o pequeníssimo facto da Izzie ter um tumor cerebral mortal e inoperável. Essa parte não me importaria de passar. Também porque (e nem acredito que estou a admitir isto), tenho medo de não saber quem iria optar. Que lado iria optar! Se a minha realidade com os meus amigos e a minha vida que tenho relatado. Ou se a minha feliz irrealidade, ainda que por breves momentos. Teria aquela parte lá, pronta a envolver-me num abraço tão apertado que me faria sentir que estava tudo bem. Que o mundo era perfeito. Depois, iria para o céu, o paraíso. Ele acredita nisso, nesse mundo superior. Ele seguir-me-ia sem dúvida. Porque ambos seriamos a perfeição do mundo do outro. Seriamos o mais importante, aquela coisa que se temos, somos incapazes de abdicar. É demasiado nossa, faz parte. Acaba por tomar conta de tudo. Não deixa mais prioridades. Nada a não ser ele!
O caça pesadelos não está a funcionar. Senti-me de novo atacada, esta noite. Encontrava-me na minha realidade. No meu bairro. Ouvia a sua voz a chamar-me com o seu tom aveludado. Corri na sua direcção, via a sombra dele sumir, sempre que quase o alcançava. Encontrei-o perto de um grande eucalipto. Lembrei aquela zona, como uma mata que se encontra perto da minha casa de infância. Olhou-me nos olhos com uma expressão de raiva, não a reconheci. Tentei alcança-lo, desta vez não se esquivou. Apenas me desviou a mão, com uma expressão de nojo espelhada no seu rosto. Deixei caí-la, sem força, ao lado do corpo. Abriu a boca, suspirou de impaciência, enebriando-me com a sua visão, e disse:
- Não és tu! Estás errada, não és tu quem eu chamava. Eu nem sei quem tu és!
Estas palavras apanharam-me de surpresa. Não esperava este tipo de reacção da sua parte. Soltei um soluço, ao deixar cair uma lágrima solitária. No mesmo intante, limpei-a. Encarnei uma expressão dura, forte, embora magoada. Raivosa até, senti-me traída.
O seu olhar desviou-se, voltando a correr o horizonte com os olhos. De repende, sorriu com um olhar enternecido. Estendeu a mão em direcção ao vazio. Subitamente, um vulto aproximou-se. Alguém diferente. Um mulher pequena, cabelo preto e curto, uns olhos verdes penetrantes. Dirigiu-lhe um sorriso, dando-lhe a mão, não me dirigiu um olhar sequer. Como se eu nem sequer me econtrasse lá. Estavam no mundo encantado. Tal como devia ser o amor, tal como eu o imaginava.
- Estive muito tempo à tua espera! Finalmente chegaste. - declarou a mulher com uma voz suave e carinhosa, aproximando-se dele.
- Peço perdão, minha senhora. Nunca foi minha intenção deixá-la em tal ansiedade. - respondeu com a sua voz firme e cavalheiresca.
Então, de mãos dadas, caminharam em direcção à escuridão da floresta. Tal como um verdadeiro final feliz. Só não era o meu.
Acordei assustada, erguendo-me num salto, respirando de forma ofegante. Arranquei o caça pesadelos do alto da minha cama, pensando "Fui tão roubada!".
