
Não posso voltar assim! Não vai ser bom para mim reviver tudo aquilo outra vez. Já custou o suficiente e ele não vai continuar lá. Talvez ele realmente nunca tenha existido. Talvez tenha sido um fio de luz que escapou durante um eclipse ou então uma espécie de fantasia criada pela minha falta de afecto. Mas eu tenho tudo, a mediocridade descreve-me na perfeição. Será que foi por isso que ele aqui apareceu? Para curar a minha carência. Mas se sim porque partiria mais tarde o meu anjo invocado se o seu propósito vital era destruir a minha infelicidade. Ao partir, apenas deixou um buraco no meu peito, que ameaça desabar sempre que inspiro. Eu posso tentar impedir o meu corpo de desmoronar, mas interiormente essa força parece não surtir efeito algum. A minha sanidade menta desvanece como uma nuvem no céu. Cada uma das minhas forças acaba por cessar-fogo e cair derrotada no chão como uma folha no Outono. Para quê lutar se já sei como vai ser o futuro? Por vezes gostava de me tornar catatónica, no mínimo esses não parecem sofrer. Não sentem simplesmente. Foram completamente desprovidos de todos os cinco sentidos. A meu entender isso até prova ser positivo, no meu caso, visto que cada vez que olho para a janela o lembro a entrar por ela a meio da noite, cada vez que entro na cozinha o relembro a agarrar-me pela cintura e a tomar-me nos seus braços esmagando os seus lábios contra os meus. Cada vez saiu de casa imagino o seu carro reluzente rosnando de impaciência. A minha vida rege-se por lembranças e dor. Valerá a pena continuar? Se nem num futuro me imagino feliz, porquê fazer questão de abrir os olhos todas as manhãs? Tentar pensar e raciocinar quando não estou sozinha é difícil. Tentar saber quando devo forçar um sorriso ou uma expressão entusiasta ou por vezes penosa é a cada dia que passa mais complicado e impossível. Comer, beber, dormir, cumprir as rotinas diárias é para mim desnecessário. Apenas a água quente sobre a minha pele fria me faz esquecer por momentos a vida que levo. Se calhar era bom para mim sair desta cidade! É muito pequena, demasiado pequena. Todos se lembram de mim e do meu largo sorriso de felicidade quando ele estava comigo. Devia simplesmente mudar-me, fugir, começar de novo num local onde em que ninguém me conhece. Mas temo que assim eu me esqueça realmente dele. Isso é impensável, imperdoável! Viver sem as minhas memórias é desenxabido. Não poderia suportar algo assim, tão vazio. A minha vida antes dele parece-me desfocada. Não me recordo de nomes nem de pormenores.
Então vou saltar, sim saltar para sentir o ar, a adrenalina, a velocidade como ele tanto amava e a doce lembrança sem o recheio de dor. Libertei-me de vícios, materialismos e sonhos. O que interessa é ele, única e exclusivamente. Se saltar realmente, talvez encontre finalmente o meu anjo branco e ele me carregue de novo nos seus braços. Se foi Deus que mo enviou obrigada. Vou agora ao teu encontro amor, espera por mim. Sempre e nunca. Fica e vai.
FP
FP
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