terça-feira, 27 de abril de 2010

Capítulo III: " Ganha coragem e fala"



Rodrigo Menezes perdeu a paciência consigo mesmo. Nunca na sua vida se tinha sentido tão afectado por alguém, por uma simplória rapariga. Tentava dar voltas à cabeça, numa tentativa de entender o porquê daquela vergonha, daquele instinto maligno. Parado, a 5 metros dela, aproximou-se, fixando um olhar interrogatório.

-Desculpa, estavas a falar para mim? - e logo se seguida se arrependeu de ter iniciado a conversa assim.

-Ah! Desculpe, não reparei que estava alguém aqui, eu vou embora. - disse encolhendo a cabeça, escondendo-se de vergonha atrás dos seus longos cabelos. O facto de o ter tratado por "você", despertou uma ponta de irritação em Rodrigo. Só faltava dizer que tinha cara de velho.

-Não! Não vás... Eu não quis assustar-te, venho só numa visita de estudo. Sou, o Rodrigo Menezes, prazer!

-Não me assustaste, nunca disse isso. Ai ai, desculpa lá! Vou começar de novo, olá, sou a Maria Rita e não gosto do meu apelido.

-Ainda bem que não e não faz mal. É normal que estejas exaltada e não "assustada" com a minha súbita presença.

-Não me parece que tenha sido a tua presença, era mais este sítio, esta fonte... - e olhou mais uma vez a marca.

-E o que tem esta fonte de especial para ti? É linda sem dúvida alguma. Mas o quê em especial? - interrogou.

-Eu tenho uma, chamemos-lhe "pancada" com coisas velhas, antigas. Gosto de tocar-lhes e...

-...Saber que à anos e anos atrás, outras pessoas tocaram neste exacto sítio. Pessoas que nunca conhecerás, pessoas importantes, com vidas completamente abstractas à tua. Desculpa interrompi-te. - disse completando a frase de Rita.

-Não, é exactamente isso que disseste. Como é que... sabias? - perguntou com os olhos cada vez mais cerrados em sinal de suspeita.

-Não Rita, estás com azar. Por muito que penses nisso, eu não sou um vampiro todo lindo, que lê as mentes das pessoas, tipo "Crepúsculo"!

-Ahahahahahahah!!!- e Rita desatou a rir deixando Rodrigo sem saber o que dizer.

-Não precisas de te preocupar com isso. Não sou o tipo que imagina essas coisas mirabolantes. Mas, só para a tua informação, se fosses o estilo Edward Cullen, o que representa o "vampiro todo lindo", não conseguirias ler a minha mente. Sim eu li os livros - disse a última frase com uma ponta de vergonha.

-Eiii, estás a auto-classificar-te como Bella? - disse com um sorriso maroto - Eu não li, mas vi os filmes, é mais interessante.

-Eu não quis dizer isso, humm... Tenho de procurar o meu grupo, não os posso perder.

-Calma Rita, estava só a brincar. Nem eu próprio me classifico como o estereótipo do "Edward Cullen". - informou revirando os olhos.

-Porque não? Se tens essa beleza óbvia, é normalíssimo que o faças.

-"Beleza Óbvia"? humm, é suposto agradecer? Isso significa que sou vulgarmente bonito?

-Relembra-me porque estamos a falar da tua beleza?

-Vampiros!

-Ah! Vampiros... - disseram em coro.Depois riram, conversaram durante uma hora no mínimo, mas conversas que passavam de tema para tema em questão de minutos. Conseguiram ter aquela ligação, em que o tema nunca se acaba. Tinham a plena noção de que poderiam continuar a falar durante uma semana, um mês, um ano e teriam sempre sobre o que falar. Tinham um novo amigo.

As 6 horas chegaram e chegaram à conclusão de que talvez fosse melhor procurarem os seus grupos e voltarem para casa. Rodrigo ofereceu-se para leva-la até o portão da Quinta e caminharam, lado a lado, orgulhosos desse mesmo acto. Ao chegarem ao portão, Rodrigo não pode evitar e perguntou:

-Eu sei que isto provavelmente vai soar muito mal e vais achar que sou super foleiro, mas eu adorei falar contigo hoje. Adoraria que me possibilitasses voltar a falar contigo.

-Podemos começar com o número de telemóvel? - disse Rita com vergonha espelhada nos seus olhos.

-Claro aqui tens. - e entregou-lhe um papel.

-Tu andas com cartões com o teu número de telemóvel? Sou a vigésima rapariga a quem dás o teu número hoje, certo?

-Não, achas mesmo? Simplesmente é uma brincadeira entre mim e os meus irmãos. Gozamos com o meu pai, ele tem estes cartões, como é médico. E nós optamos por arranjar uns também, nunca esperei usar um, mas... há primeiras para tudo.

-Ah! Claro, deixa-me só fingir que acredito nessa história mirabolante. - disse elevando as mãos ao ar e rodopiando-as com ar gozão.

-O que é que tem de mirabolante? Só te disse que o meu pai é médico. - afirmou com um ar carrancudo, embora igualmente brincalhão.

-Bem, bem, parece que nunca saberás o que se passa dentro da minha mente! Muahahah!!- disse com um ar diabólico. Esta conversa estava a tomar um rumo extremamente cómico.

-Mesmo que fosse o vampirinho, o teu, nunca seria capaz de ouvir. - disse piscando-me o olho - Adeus Rita, esperarei com ansiedade o momento em que nos veremos de novo. - exclamou com uma voz suave e aveludada, enquanto caminhava de volta ao interior da Quinta.

-Oh e quem te garante que quererei voltar a ver-te, seu grande fanfarrão! - gritou tentando parecer desinteressada com toda a situação, mas a sua voz denotou muito bem a sua aflição pela sua partida.

-Em breve. - ouviu a voz uma última vez.Ao entrar no autocarro da escola, colocou os phones, agarrou no telemóvel e no cartão, gravou o número com o nome "Rodrigo - Coimbra" e enviou uma mensagem com o seguinte conteúdo: "Só para que saibas que o teu número tem um nome mesmo feio! Maria Rita - Coimbra" e a resposta para esta foi, "típica mensagem de «porcaria», perdoa-me a expressão, de iniciar uma conversa! Mas fico feliz que a tenhas enviado. Rodrigo".E assim continuou a conversa virtual, as novas telecomunicações são sem dúvida a melhor das invenções.

Assim que o autocarro começou a andar, Rita olhou para o portão e lembrou a mulher, D. Maria, e todo o sofrimento que aquele local presenciou.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Capítulo II - "A Fonte"




Rodrigo sentia-se extremamente intrigado em relação aquela rapariga. Talvez tenha sido o sentimento de solidão que os aproximou um para o outro. Mas, inicialmente, Rodrigo, apenas a observou. Observou a rapariga, fantasiou com ela, com o que deveria dizer, com a sua face, como tudo seria. Após minutos extensos como horas de deliberação, optou pela via convencional, mesmo não sabendo porque lhe interessava a forma de abordagem (havia uma primeira vez para tudo).
Rita, permanecia sentada sem saber da presença de outrem. Olhava a fonte com a mesma expressão intrigada. Formando rugas entre as sobrancelhas, que lhe davam um ar querido (uma primeira para a Rita, igualmente). A mulher da fantasia sangrenta de Rita tinha já ganhado vida própria, nome, nascimento, habitação. Um conjunto de vivências que a ajudavam na explicação natural do sucedido.


D. Maria de Macide, nasceu no dia 18 de Setembro no ano de 1219. Oriunda de uma família nobre, vestia trajes bordados a ouro, cabelos apanhados num arranjo perfeito com pérolas que brilhavam ao sol, corpetes apertados que lhe conferiam uma aparência aprazível e um olhar penetrante, que no entanto espelhavam a inocência presente na sua alma.
Carlos António, nascido no dia 8 de Dezembro de 1215. Era um cavaleiro reconhecido, pelo seu talento na luta, pela sociedade da altura. Tinha como maior missão de honra, proteger a vida e a integridade física do Rei e Senhor D. Afonso III. Não há qualquer ligação entre as duas personagens, até ao dia 28 de Abril de 1236. O fatídico dia primaveril que acabou por uni-los no mesmo espaço, no mesmo terreno.
Rei D. Afonso, chamou à sua presença, no anual banquete de Primavera, as famílias de mais altas estirpes, incluindo a família Macide. Estes, da cidade de Coimbra, apresentaram-se ao Rei, no dia marcado, prontos a apresentar a sua filha à Corte. D. Maria foi incutida de que aquele seria o dia mais importante da sua vida. Tinha um alvo, o filho do rei, Afonso. Este era um jovem alto, com barbas pesadas, olhar negro, embora dono de uma cultura digna de inveja dos restantes pretendentes de Maria. Ela vestia um vestido longo de cor verde, uma cauda longa, cabelo solto, com os seus caracóis negros batendo-lhe nas costas nuas e brancas. Os seus olhos, pelo contrário, mantinham uma coloração verde, enjoada, triste. Qualquer alma que ousasse olhar tal beleza, não poderia desviar mais o olhar tentador.
Carlos apresentou-se ao serviço da Guarda Real, no mesmo dia. Como qualquer outro alto membro da Guarda, posicionava-se no flanco direito do Rei, pronto para o proteger de qualquer possível investida.
Durante o banquete, Maria manteve-se perto dos pais, até ao momento em que estes a mandam descolar-se à companhia de Afonso. Ela avançou pela multidão de gentes gritantes pelas novas rosas brancas, que decoravam os jardins da casa de campo do Rei, olhando Afonso. Este já teria dado pelo seu olhar, mas não se teria dado ao trabalho de dar importância. Subitamente, Carlos atravessou bruscamente o campo de visão de Maria, passando por entre ela e Afonso. Maria sentiu uma força invencível dentro dela e observou vivamente Carlos com os olhos espetados na sua direcção.
Carlos, com os seus vinte e um anos de idade, era alto e entroncado, tinha cabelos negros e encaracolados. Um bigode carregado, sem enrolados. Olhos claros, azuis, penetrantes, que lhe cravaram a alma no mais ínfimo recanto corporal. Um pela clara, leitosa e vestia os trajes da Guarda Real, justa ao seu corpo. Esta visão relembrava-lhe o antigo cânone de beleza grega, que tinha aprendido nas conversas que ouvira o seu pai ter com o mercador italiano que o visitara, vindo de Florença.
No momento em que Carlos a olhou pela primeira vez, viu o brilho, o brilho da paixão. Sentiu uma pressão no fundo do seu peito que lho fazia arder. Quem seria aquele ser tão bela, que teria captado a sua atenção de forma tão inconsciente? Mas não seria inconsciente, seria? Se ela o olhava de igual forma também. Carlos, rapidamente lhe dirigiu um suave sorriso e entrou no labirinto do jardim. Maria acordou do seu transe, abanou a cabeça para todos os lados e olhou de novo Afonso, que a fitava com um olhar ciumento, substituído por presunção quando o olhar lhe foi retribuído. Carlos apareceu dez metros mais á frente, dentro do labirinto, submergindo Maria na mesma escuridão que Jonas no ventre da Baleia. Esta deu um passo em frente e só abrandou o andamento, até estar frente a frente para Carlos, não se importando minimamente com o olhar de fúria proveniente de Afonso, que sentia a queimar-lhe as costas.
As primeiras palavras que Maria ouviu, provenientes da boca de Carlos, foram:
-Quem és tu, afinal? – Interrogou, com um ligeiro gozo pendente nos lábios.
Estas palavras foram pronunciadas com uma voz de veludo que a entrelaçava envolta numa meiguice só possível nela.
Deambularam pelo labirinto verdejante durante horas, até o sol ter caído e os cães se terem feito ouvir perto. Gritos chamavam:
- Maria! Maria, onde estás? – Ouviu a voz preocupada, de seu pai.
Os dois olharam-se por uns instantes, despediram-se e prometeram encontrar-se assim que possível. E durante meses a fio, assim foi. Carlos procurava Maria nos bosques ao lado de sua casa e respirava de alívio assim que avistava uma luz proveniente de uma vela, que iluminava o rosto da sua paixão eterna. O amor proibido era um elemento presente e inevitável nas suas vidas. Por vezes apenas se olhavam pela varanda pela varanda. Momentos em que Maria não conseguia escapar às guardas das aias, assim encostando a cabeça, perdido de amores, ao portão.
Maldito foi o dia em que o pai de Maria descobriu. Afonso, pronto para reinar, nunca pode perdoar a um membro da guarda de seu pai, ter-lhe roubado a satisfação de abusar de Maria. Afonso era um homem cruel, com uma natureza má e, então, um dia dirigiu-se à casa dos Macide, numa noite de Inverno fria, às 8 horas da noite, e informou pai de Maria sobre a relação que esta mantinha com Carlos.
Este foi imediatamente chamado pela Guarda e teve de regressar ao palácio real. Maria foi ameaçada pelo pai, que se não casasse com Afonso, seria enviada, prontamente, para o Convento do Porto, longe de todos que afectavam o seu discernimento. Não aguentando tais opções e sofrendo por abandonar sua mãe, Maria partiu. Fugiu levando apenas um punhal para sua protecção, prometendo a si mesma ter a força suficiente para atacar qualquer pessoa que se atravessasse no seu caminho.
Ao chegar a casa de Carlos, foi-lhe aberta a porta por seu pai, que guardava na mão uma carta com o símbolo real. A casa estava iluminada apenas pela luz de uma vela, em cima de uma mesa da cozinha. O velho, com os olhos chorosos, lá encontrou forças para falar e disse:
- Eu lamento muito, menina Maria! Minha querida, doce Maria, mas parece que terás sido atraiçoada pelo destino fatal! Só terás de saber que ele te amou mais do que à própria vida. – e com estas palavras Maria conseguiu sentir uma ruptura dentro de si mesma, nunca voltaria a ver a mesma.
Maria foi invadida por mil emoções, enlouqueceu. Gritou e correu com força pêra lado nenhum, percorrendo as ruas de Coimbra. Não podia ser, no momento em que tinha encontrado o verdadeiro amor, este lhe fora arrancado do peito com a força de mil sóis. Chegou a uma Quinta, os portões grandes pareciam imponentes e carregavam letras grandes que diziam “Quinta das Lágrimas”. Pareceu-lhe correcto e então entrou, vagueando pelos carreiros, ladeados por ervas altas. Encontrou, debaixo de umas escadas, uma fonte. A fonte era de pedra, de onde saía uma água límpida e fresca. E então, na sua mente tudo pareceu claro demais. Se não lhe era permitido estar com Carlos nesta vida, não estaria com mas ninguém. Alcançou o punhal que guardara consigo, este pesava cada vez mais, ardia-lhe nas mãos. Então, finalmente ergueu o punhal e cravou-o no peito! Um dia de sangue, fino, suave, jorrou em direcção ao fundo da fonte.
Passados 774 anos, esse sangue,
permanece.





sábado, 24 de abril de 2010

Fan Fic - The Vampire Diaries


Capítulo I – “A revolta”


Elena enfrentou uma vez mais o olhar selvagem de Stefan, enquanto este se aproximava devagar com uma pose de ataque. Stefan soltava rugidos aterradores da garganta, os seus olhos ganhavam uma coloração negra e a sua pele franzia-se tornando as suas presas visíveis. Elena inspirou fortemente, fechou os olhos e agachou-se, de modo a proteger-se do choque que a atingiria dentro de segundos.
De repente ouviu-se um estrondo! Elena abriu depressa os olhos e viu Stefan ser projectado para o lado contrário da sala, pela força imponente do seu irmão Damon. Sem quase se aperceberem da presença de todos, naquele quarto escuro e antiquado, Damon soluçou e com uma voz que banhada de ameaça violenta, exclamou, "Nunca mais voltarás a magoar a mulher que eu amo! A Elena não será a Catherine, não vou permitir que a magoes."
Stefan, que tinha embatido contra a estante, perdeu a força, sendo esta suplantada pela surpresa, depois choque, depois raiva.
Ergueu-se, percorreu a distância que mantinha entre o irmão, em duas largas passadas, e olhou-o nos olhos. Damon mantinha a exacta mesma expressão. Elena conseguia sentir a tensão presente entre os irmãos Salvatore, numa tentativa falhada de manter o silêncio, chamou a atenção dos dois para si, ao começar a soluçar fortemente, criando lágrimas espessas que lhe desciam pelas faces. Damon e Stefan olharam rapidamente para ela, mas foi Damon que numa velocidade demasiado elevada para que Elena visse mais que uma mancha das cores da roupa que este vestia, a envolveu com os braços, a carregou e a levou de volta a casa. Mas não antes de ouvir a voz apagada de Stefan dizer, "Elena, eu... eu não consigo" e rolou o corpo virando-se para a janela do 1º andar, de onde saltou sem dificuldades, ouvindo-se o baque surto dos seus pés a atingirem o solo firme.


Capítulo I - "O encontro"


“Oh here, will I set up my everlasting rest. And shake the yoke of inauspicious stars, from this world-wearied flesh!
Eyes, look your last.
Arms, take your last embrace.
And lips, Oh, you the doors of breath, seal with a righteous kiss
A dateless bargain to engrossing death”.

Romeo e Julieta, William Shakespeare


Já pensaste o que farias quando o mundo chegasse ao auge? Já pensaste o que dirias, como reagirias, como a tua respiração seria alterada, como o pulsar do teu coração seria tão forte na tua cabeça que parecia que poderia rebentar a qualquer momento? Bem, sem um contexto seria difícil responder a estas questões. Portanto eis a história.
Maria Rita é alguém tipicamente medíocre. Não há nada no mundo para que tenho um talento inato. Não sabe dançar, cantar, escrever. Nunca se deu ao trabalho de tentar explorar o mais ínfimo canto da sua mente em busca de algo "fora do normal". Algo porque pudesse ser caracterizada. Vivia num sítio, só.
Rodrigo Menezes, o contrário de Rita. Conhecido pela sua beleza fora do normal, olhos de uma cor dourada, um maxilar fortemente cravado na sua face, que lhe dava um semblante duro e um nariz aquilino. Era de uma família afortunada, com um pai médico e mãe presente em casa, que deu a sua vida pelos filhos. Irmãos igualmente belos e caracterizados pela inteligência superior. Mas algo de estranho se passava no seio daquela família portuguesa. O convívio social, que era de esperar, simplesmente não era. O que pudéssemos pensar, toda a vida que provavelmente estarás a imaginar para ele e seus irmãos, será o oposto da realidade. Sem falar com ninguém, aparte dos irmãos, Rodrigo vagueava pelos corredores amplos e escuros do antigo Liceu, sem olhar para alma alguma. Para onde os seus olhos olhassem, era como se os mesmos trespassassem o corpo com a facilidade de um punhal afiado. Olhava algo mais, um infinito, um futuro próximo crescente na sua mente.
A vida de ambos passou sem grandes preocupações. Habitavam as suas cidades, arrastando-se pelo mundo, sem nada concreto a que se agarrar. Algo em comum nas suas vidas de estudantes, estava prestes a mudar todas as suas vidas. A visita de estudo. Aquele dia venerado por todos os alunos, em que podiam sair da sua cidade para visitar um sítio desconhecido em que o propósito era "aprender", mas que resultava num dia de convívio entre colegas, viagens de autocarro a cantar a altos berros a música "Eye of The Tiger" quando passava na rádio.

Destino: Coimbra, Quinta das Lágrimas.
Hora de partida: 8:30h
Hora de chegada: 18:30h
Durante estas 10 horas, foi como se os pólos se tivessem movimentado gravemente, e esse mesmo movimento alterou subitamente as suas frágeis vidas humanas. Não passavam disso, simples rosados humanos. Um rapaz. Uma Rapariga. Os dezasseis anos de juventude máxima, em que o mundo não importa, nem nós verdadeiramente importamos. O futuro está cada vez mais próximo, mas parece que temos sempre a capacidade de mentalmente afastarmos a responsabilidade um pouco mais para trás. Como que inocentemente, ambos entraram nos seus respectivos autocarros, se sentaram nos bolorentos acentos, colocaram os phones e adormeceram.
Ao acordar, vislumbraram as velhas ruas da baixinha de Coimbra. Estavam na eterna cidade Universitária, onde, ainda que não se lembrassem, fora posto fim ao romance português mais efémero. D. Pedro e D. Inês de Castro. Talvez tenha sido o ambiente, a ligeira brisa que passava por entre as árvores e as fazia tremer, o correr da água pela fonte, mas algo nesse dia os afectou.
Entraram no jardim, comprido e verdejante, acompanhando os seus respectivos grupos de escola, e iniciaram a visita. Enquanto a guia explicava aos desatentos colegas a história da Quinta das Lágrimas, Rita e Rodrigo foram-se deixando ficar para trás. Ainda longe um do outro, mas parece que já eram, agora antes de se conhecerem, comandados pela mesma força gravitacional, eles próprios. Ao chegarem a uma escada que dava para a parte superior do jardim, por onde seguiriam para um almoço carregado de calorias na relva, Rita travou o andamento e deixou-se ficar com os olhos pregados numa pequenina fonte, de pedra cinzenta. Era velha, gasta pelo tempo, mas a água que saía da abertura feita na pedra era límpida e fresca. Como uma marca do passado que se recusa a partir, uma mancha pesada se encontrava no fundo daquela fonte. Rita conseguia sentir o cheiro a sal e ferrugem, Sangue! Um caminho ondulado de sangue, desenhava uns ligeiros rodopios na pedra antiga. Rita sentou-se na beira e divagou com a sua mente, sobre de quem o sangue seria, o que teria acontecido, que situação teria levado aquele sangue derramado. Nunca saberei porquê, mas a teoria que Rita construiu na sua mente, foi a de uma mulher abandonada, deixava só na sua longa vida, que tinha perdido as forças. Se tinha sentado no mesmo local em que ela estava, na mesma posição, com longas vestes e teria cravado um punhal no peito, de modo a ganhar poder da sua vida. Podia ter perdido tudo, mas algo ela ainda tinha. O poder de ditar que ela própria viveria, ou morreria. Rita não sabia se teria sido por orgulho, ou se por cobardia, mas mesmo assim sem hesitar, teria cravado o punhal e morrido, só.
Enquanto Rita divagava o pensamento, Rodrigo caminhava pelo carreiro no meio das flores, arbustos e árvores. Encantado pelo canto dos pássaros e pela imagem do sol a penetrar a imponência das árvores, dava passo a passo, um a seguir ao outro, sem pensar verdadeiramente em nada. Então ouviu uma voz. Mas não era uma voz qualquer, era uma voz límpida, suave, sonhadora. Ouvia-a baixinha, mas perto. Deixou a beleza da paisagem envolvente e baixou o olhar. Vislumbrou de novo o jardim, sem grandes mudanças, a não ser uma rapariga franzina, sentada à beira de uma fonte, ditando palavra atrás de palavra, como se hipnotizada. Dizia, " Eu sabia, no fundo do meu coração, dentro dos meus ossos, na cor dos meus baços olhos, no sangue aflorado da minha pele, que o amor que sentiste por alguém, lhe deu o poder para te quebrar. Quebrar eternamente e irrevogavelmente".

23/04/2010
Filipa Pereira

sábado, 17 de abril de 2010

Liliana - O encontro




Demorei horas até chegar a Los Angeles. Avião, autocarro, táxi, metropolitano. Depois de dias à espera, estou do lado direito da passadeira vermelha dos MTV Movie Awards 2010. Onde iriam passar alguns dos meus maiores ídolos, o êxtase era a emoção correcta para descrever a corrente eléctrica que percorria o meu corpo. Visto uns jeans preto escuro, uma t-shirt verde manchada do canto inferior direito da gordura dos baldes de galinha frita do KFC, e uns all star verdes todos rasgados e escritos. Sim, não estava nas minhas melhores roupas, mas vesti-as na mesma, naquela casa de banho pública, porque queria ser eu própria, ao mais alto nível naquela noite. Não sabia o que iria acontecer, mas as minhas expectativas não eram altas. Esperava o normal: a emoção incontrolável e as lágrimas correntes; a desilusão do momento passar num instante; a depressão dos dias posteriores; e, finalmente, a aceitação e assim a minha vida continua. Acho que eu própria queria que a minha vida fosse mais do que uma simples obsessão por pessoas que não conhecia, que podiam muito bem ser más pessoas. Porque deveria eu idolatrar pessoas que não conheço? Pessoas que podem não passar de beleza exterior e psicologias baratas. Mas eu não passo de uma adolescente inconsciente, de uns míseros 16 anos de idade que não tem a mínima noção do que faz. Pelo menos é essa a visão que o munda parece ter de mim, desde os meus 13/14 anos. Será que nunca vais mudar? Bem, eu estou aqui por alguma razão. A primeira é porque amo o homem errado; a segunda é porque quero deixar de amá-lo.
Vim com um grupo de raparigas que não conheço de lado nenhum e, sinceramente, nem me importei em conhecer. Temos opiniões diferentes sobre a razão de estarmos aqui hoje. O que fiz foi segui-las para todo o lado, mas sem prestar atenção ao que faziam. Sempre com phones nos ouvidos, caminhei na direcção desconhecida das ruas de LA. Os dias passaram, o sentimento foi aumentando e agora o momento chegou.
Hora H! As luzes foram acesas, a passadeira vermelha rolou pelo passeio extenso, as grades foram colocadas. Tudo estava pronto, os paparazzi tinham as câmaras apontadas para os carros que se aproximavam vagarosamente e eu já não podia tanto com tantos nervos. Vi os carros com as janelas cobertas de wallpapers do novo filme a estrear da Saga Twilight: Breaking Dawn. A porta abriu-se, os pés pousaram no chão. A cabeça saiu baixa, devido às luzes, mas logo de seguida os olhos ergueram-se. Fui deitada a baixo com a emoção que me preencheu! Não tinha palavras, não tinha força, era como se nada de prendesse aquele chão e estivesse apenas à espera de começar a flutuar e ser levada pelos ventos. Ele saiu do carro, caminhou em direcção aos fãs, que gritavam histéricos pelo seu nome, para dar os respectivos autógrafos. Eu tinha criado uma ampola de ar à minha volta, embora milhares de raparigas me empurrassem, gritassem aos meus ouvidos eu não sentia, não ouvia. Apenas o conseguia fitar, nem me apercebi que não tinha a reacção que sempre imaginei que teria. Fui o contrário, senti que com este momento o tinha cravado profundamente no meu peito, de onde nunca iria conseguir sair.
Subitamente senti os seus olhos nos meus, o meu coração voou-o, senti-o palpitar cada vez mais depressa, no peito, na cabeça onde sentia o seu pulsar com violência. Sorri, na tentativa de captar o seu olhar durante uns poucos segundos a mais. Ele não sorriu, mas também não desviou o olhar. Entretanto minutos tinham passado e os seus colegas com quem tinha partilhado o carro, já se encontravam à entrada do edifício. Ele franziu o sobrolho, formando as rugas entre os olhos que tinha estudado exaustivamente no ecrã no meu computador barato. Mostrava surpresa, curiosidade, intriga, uma ponta de desilusão que rapidamente foi substituída por um passo rápido na minha direcção.
Fiquei parada, não, continuei parada! Cheguei à conclusão que não me mexia há imenso tempo e que os meus braços começavam a doer seriamente, conseguia sentir as minhas unhas a cravarem-se na pela enquanto as minhas mãos formavam uns punhos cerrados. Ele continuava a caminhar na minha direcção com os olhos percorrendo cada linha da minha expressão, embora eu estivesse uma lástima sem mínima dúvida. Ao chegar perto de mim, a sua expressão alterou-se por completo, apresentando uma serenidade absoluta. Uma expressão de alívio, como se estivesse à minha espera este tempo todo, tal como eu tinha esperado por ele todos estes dias. Surpreendendo-me mais uma vez, ergueu as mãos ao nível da minha cara, segurou-a colando a sua testa à minha e sussurrou-me "Acorda!".
Abri instintivamente os olhos e vislumbrei o meu quarto. Deslizei para o lado oposto da cama, agarrei-o e disse "Bom Dia!".

Filipa Pereira
19:24h
Sábado, 17 de Abril de 2010

quarta-feira, 14 de abril de 2010

New Moon - Razão e Amor


"E no entanto, para dizer a verdade,

hoje em dia, a razão e o amor quase não andam juntos."

William Shakespeare

Sonho de Uma Noite de Verão

III Acto, Cena I


Hoje atingi o auge! Hoje soube o resto da minha vida, pelo menos conheci o pilar da mesma. Apenas com o olhar, descobri o trilho bem demarcado na floresta densa que é a minha vida. Não se poderá chamar de "amor à primeira vista", pois isso soa demasiado banal. Fui deitada abaixo com a força de mil sóis, não me dei ao trabalho mínimo de me tentar erguer de novo. A força que me derrotou, que me derrubou, é fria, branca e dura. Sendo fria, os seus beijos são os mais mornos de todos, consegue obstruir-me todo o corpo e retirar-me o mecanismo de respirar. Branca, como mármore, uma estátua que representa melhor que ninguém o cânone de beleza Grega! Dura, mas o seu toque proporciona o mais suave dos toques. Edward Cullen, o amor da minha existência!
Mas subitamente algo mudou. Algum movimento, superior à limitada mente humana, mudou drasticamente a linha da minha vida. Não sei se foi a minha constante falta de sorte, os meus "acidentes" regulares, ou simplesmente a minha simplicidade e mediocridade que o afastaram. A minha era e é ele! O meu céu mudou, o meu chão mudou, tudo se alterou a partir do momento em que olhei aqueles olhos dourados, aquele ouro líquido pela primeira vez. A força gravitacional que me movimentava e ajustava em relação ao mundo era, única e exclusivamente, ele! O mundo era o local perfeito, ele habitava ao meu lado. Subitamente a minha mente foi invadida por pensamentos negros e sádicos, sem sentido algum. As palavras do adeus, da despedida, da revelação final rodopiavam pela minha mente e eu não tinha a capacidade de falar. Queria gritar "Não, por favor fica, eu farei tudo por ti, tudo o que queiras. Por favor não vás", mas a minha garganta estava completamente serrada. A cara molhada, os olhos ardiam das lágrimas e eu apenas soluçava. Sabia que ele me ouvia, por isso obriguei as minhas pernas a avançarem pela floresta, pela vegetação, pela chuva que enlameava a terra fértil onde anteriormente tínhamos plantado o nosso amor eterno. Corri, saltei, chorei e acabei por cair. Fiquei quieta com o vago pensamento de que se ele me ouvisse cair viria certificar-se de que estava bem. Isso dar-me-ia a oportunidade de o agarrar com os meus fracos braços humanos, suplicar-lhe que não partisse, ameaçá-lo com a minha própria vida se fosse necessário. O meu amor por ele tem a força de me tornar na pessoa mais egoísta, como disse, fazia tudo por ele.
Deixei-me debruçada no chão e acabei por adormecer, sonhei com algo frio e molhado, desconfortável, triste, apagado! Passaram-se meses, meses de angústia, de sonhos, de memórias, de lágrimas, de gritos, de sonhos. Eu perdi a razão, perdi a paciência para a vida, perdi a noção do tempo e do espaço. Vazia, exacto. Tentei contactar a Alice, a minha única e melhor amiga, mas nem ela me parecia responder. Será que esta família, esta minha família seria um devaneio da minha mente? Não tinha provas materiais de que eles existiam, apenas memórias a que me agarra com unhas e dentes. Nunca perderia estas imagens, sons e cheiros doces e amáveis! Eu sou as minhas memórias, por muita tristeza que me possam causar, elas são a minha existência!
Por muito que venha, por muito que passe, por muito que eu cresça, nunca haverá um "TU". Sou a tua Bella para sempre, a frágil humana a quem um dia juraste amor eterno.
Nunca imaginei que me pudesse sentir assim, como se nunca tivesse visto o céu antes, quero desaparecer no teu beijo, a cada momento que passa amo-te cada vez mais. Ouve o meu coração, consegues ouvi-lo cantar. Este diz-me para dar-te tudo o que é meu. As estações podem mudar, Inverno para o Primavera. Mas eu amo-te, até ao último dia da minha existência!

Filipa Pereira