segunda-feira, 26 de abril de 2010

Capítulo II - "A Fonte"




Rodrigo sentia-se extremamente intrigado em relação aquela rapariga. Talvez tenha sido o sentimento de solidão que os aproximou um para o outro. Mas, inicialmente, Rodrigo, apenas a observou. Observou a rapariga, fantasiou com ela, com o que deveria dizer, com a sua face, como tudo seria. Após minutos extensos como horas de deliberação, optou pela via convencional, mesmo não sabendo porque lhe interessava a forma de abordagem (havia uma primeira vez para tudo).
Rita, permanecia sentada sem saber da presença de outrem. Olhava a fonte com a mesma expressão intrigada. Formando rugas entre as sobrancelhas, que lhe davam um ar querido (uma primeira para a Rita, igualmente). A mulher da fantasia sangrenta de Rita tinha já ganhado vida própria, nome, nascimento, habitação. Um conjunto de vivências que a ajudavam na explicação natural do sucedido.


D. Maria de Macide, nasceu no dia 18 de Setembro no ano de 1219. Oriunda de uma família nobre, vestia trajes bordados a ouro, cabelos apanhados num arranjo perfeito com pérolas que brilhavam ao sol, corpetes apertados que lhe conferiam uma aparência aprazível e um olhar penetrante, que no entanto espelhavam a inocência presente na sua alma.
Carlos António, nascido no dia 8 de Dezembro de 1215. Era um cavaleiro reconhecido, pelo seu talento na luta, pela sociedade da altura. Tinha como maior missão de honra, proteger a vida e a integridade física do Rei e Senhor D. Afonso III. Não há qualquer ligação entre as duas personagens, até ao dia 28 de Abril de 1236. O fatídico dia primaveril que acabou por uni-los no mesmo espaço, no mesmo terreno.
Rei D. Afonso, chamou à sua presença, no anual banquete de Primavera, as famílias de mais altas estirpes, incluindo a família Macide. Estes, da cidade de Coimbra, apresentaram-se ao Rei, no dia marcado, prontos a apresentar a sua filha à Corte. D. Maria foi incutida de que aquele seria o dia mais importante da sua vida. Tinha um alvo, o filho do rei, Afonso. Este era um jovem alto, com barbas pesadas, olhar negro, embora dono de uma cultura digna de inveja dos restantes pretendentes de Maria. Ela vestia um vestido longo de cor verde, uma cauda longa, cabelo solto, com os seus caracóis negros batendo-lhe nas costas nuas e brancas. Os seus olhos, pelo contrário, mantinham uma coloração verde, enjoada, triste. Qualquer alma que ousasse olhar tal beleza, não poderia desviar mais o olhar tentador.
Carlos apresentou-se ao serviço da Guarda Real, no mesmo dia. Como qualquer outro alto membro da Guarda, posicionava-se no flanco direito do Rei, pronto para o proteger de qualquer possível investida.
Durante o banquete, Maria manteve-se perto dos pais, até ao momento em que estes a mandam descolar-se à companhia de Afonso. Ela avançou pela multidão de gentes gritantes pelas novas rosas brancas, que decoravam os jardins da casa de campo do Rei, olhando Afonso. Este já teria dado pelo seu olhar, mas não se teria dado ao trabalho de dar importância. Subitamente, Carlos atravessou bruscamente o campo de visão de Maria, passando por entre ela e Afonso. Maria sentiu uma força invencível dentro dela e observou vivamente Carlos com os olhos espetados na sua direcção.
Carlos, com os seus vinte e um anos de idade, era alto e entroncado, tinha cabelos negros e encaracolados. Um bigode carregado, sem enrolados. Olhos claros, azuis, penetrantes, que lhe cravaram a alma no mais ínfimo recanto corporal. Um pela clara, leitosa e vestia os trajes da Guarda Real, justa ao seu corpo. Esta visão relembrava-lhe o antigo cânone de beleza grega, que tinha aprendido nas conversas que ouvira o seu pai ter com o mercador italiano que o visitara, vindo de Florença.
No momento em que Carlos a olhou pela primeira vez, viu o brilho, o brilho da paixão. Sentiu uma pressão no fundo do seu peito que lho fazia arder. Quem seria aquele ser tão bela, que teria captado a sua atenção de forma tão inconsciente? Mas não seria inconsciente, seria? Se ela o olhava de igual forma também. Carlos, rapidamente lhe dirigiu um suave sorriso e entrou no labirinto do jardim. Maria acordou do seu transe, abanou a cabeça para todos os lados e olhou de novo Afonso, que a fitava com um olhar ciumento, substituído por presunção quando o olhar lhe foi retribuído. Carlos apareceu dez metros mais á frente, dentro do labirinto, submergindo Maria na mesma escuridão que Jonas no ventre da Baleia. Esta deu um passo em frente e só abrandou o andamento, até estar frente a frente para Carlos, não se importando minimamente com o olhar de fúria proveniente de Afonso, que sentia a queimar-lhe as costas.
As primeiras palavras que Maria ouviu, provenientes da boca de Carlos, foram:
-Quem és tu, afinal? – Interrogou, com um ligeiro gozo pendente nos lábios.
Estas palavras foram pronunciadas com uma voz de veludo que a entrelaçava envolta numa meiguice só possível nela.
Deambularam pelo labirinto verdejante durante horas, até o sol ter caído e os cães se terem feito ouvir perto. Gritos chamavam:
- Maria! Maria, onde estás? – Ouviu a voz preocupada, de seu pai.
Os dois olharam-se por uns instantes, despediram-se e prometeram encontrar-se assim que possível. E durante meses a fio, assim foi. Carlos procurava Maria nos bosques ao lado de sua casa e respirava de alívio assim que avistava uma luz proveniente de uma vela, que iluminava o rosto da sua paixão eterna. O amor proibido era um elemento presente e inevitável nas suas vidas. Por vezes apenas se olhavam pela varanda pela varanda. Momentos em que Maria não conseguia escapar às guardas das aias, assim encostando a cabeça, perdido de amores, ao portão.
Maldito foi o dia em que o pai de Maria descobriu. Afonso, pronto para reinar, nunca pode perdoar a um membro da guarda de seu pai, ter-lhe roubado a satisfação de abusar de Maria. Afonso era um homem cruel, com uma natureza má e, então, um dia dirigiu-se à casa dos Macide, numa noite de Inverno fria, às 8 horas da noite, e informou pai de Maria sobre a relação que esta mantinha com Carlos.
Este foi imediatamente chamado pela Guarda e teve de regressar ao palácio real. Maria foi ameaçada pelo pai, que se não casasse com Afonso, seria enviada, prontamente, para o Convento do Porto, longe de todos que afectavam o seu discernimento. Não aguentando tais opções e sofrendo por abandonar sua mãe, Maria partiu. Fugiu levando apenas um punhal para sua protecção, prometendo a si mesma ter a força suficiente para atacar qualquer pessoa que se atravessasse no seu caminho.
Ao chegar a casa de Carlos, foi-lhe aberta a porta por seu pai, que guardava na mão uma carta com o símbolo real. A casa estava iluminada apenas pela luz de uma vela, em cima de uma mesa da cozinha. O velho, com os olhos chorosos, lá encontrou forças para falar e disse:
- Eu lamento muito, menina Maria! Minha querida, doce Maria, mas parece que terás sido atraiçoada pelo destino fatal! Só terás de saber que ele te amou mais do que à própria vida. – e com estas palavras Maria conseguiu sentir uma ruptura dentro de si mesma, nunca voltaria a ver a mesma.
Maria foi invadida por mil emoções, enlouqueceu. Gritou e correu com força pêra lado nenhum, percorrendo as ruas de Coimbra. Não podia ser, no momento em que tinha encontrado o verdadeiro amor, este lhe fora arrancado do peito com a força de mil sóis. Chegou a uma Quinta, os portões grandes pareciam imponentes e carregavam letras grandes que diziam “Quinta das Lágrimas”. Pareceu-lhe correcto e então entrou, vagueando pelos carreiros, ladeados por ervas altas. Encontrou, debaixo de umas escadas, uma fonte. A fonte era de pedra, de onde saía uma água límpida e fresca. E então, na sua mente tudo pareceu claro demais. Se não lhe era permitido estar com Carlos nesta vida, não estaria com mas ninguém. Alcançou o punhal que guardara consigo, este pesava cada vez mais, ardia-lhe nas mãos. Então, finalmente ergueu o punhal e cravou-o no peito! Um dia de sangue, fino, suave, jorrou em direcção ao fundo da fonte.
Passados 774 anos, esse sangue,
permanece.





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