
“Oh here, will I set up my everlasting rest. And shake the yoke of inauspicious stars, from this world-wearied flesh!
Eyes, look your last.
Arms, take your last embrace.
And lips, Oh, you the doors of breath, seal with a righteous kiss
A dateless bargain to engrossing death”.
Eyes, look your last.
Arms, take your last embrace.
And lips, Oh, you the doors of breath, seal with a righteous kiss
A dateless bargain to engrossing death”.
Romeo e Julieta, William Shakespeare
Já pensaste o que farias quando o mundo chegasse ao auge? Já pensaste o que dirias, como reagirias, como a tua respiração seria alterada, como o pulsar do teu coração seria tão forte na tua cabeça que parecia que poderia rebentar a qualquer momento? Bem, sem um contexto seria difícil responder a estas questões. Portanto eis a história.
Maria Rita é alguém tipicamente medíocre. Não há nada no mundo para que tenho um talento inato. Não sabe dançar, cantar, escrever. Nunca se deu ao trabalho de tentar explorar o mais ínfimo canto da sua mente em busca de algo "fora do normal". Algo porque pudesse ser caracterizada. Vivia num sítio, só.
Rodrigo Menezes, o contrário de Rita. Conhecido pela sua beleza fora do normal, olhos de uma cor dourada, um maxilar fortemente cravado na sua face, que lhe dava um semblante duro e um nariz aquilino. Era de uma família afortunada, com um pai médico e mãe presente em casa, que deu a sua vida pelos filhos. Irmãos igualmente belos e caracterizados pela inteligência superior. Mas algo de estranho se passava no seio daquela família portuguesa. O convívio social, que era de esperar, simplesmente não era. O que pudéssemos pensar, toda a vida que provavelmente estarás a imaginar para ele e seus irmãos, será o oposto da realidade. Sem falar com ninguém, aparte dos irmãos, Rodrigo vagueava pelos corredores amplos e escuros do antigo Liceu, sem olhar para alma alguma. Para onde os seus olhos olhassem, era como se os mesmos trespassassem o corpo com a facilidade de um punhal afiado. Olhava algo mais, um infinito, um futuro próximo crescente na sua mente.
A vida de ambos passou sem grandes preocupações. Habitavam as suas cidades, arrastando-se pelo mundo, sem nada concreto a que se agarrar. Algo em comum nas suas vidas de estudantes, estava prestes a mudar todas as suas vidas. A visita de estudo. Aquele dia venerado por todos os alunos, em que podiam sair da sua cidade para visitar um sítio desconhecido em que o propósito era "aprender", mas que resultava num dia de convívio entre colegas, viagens de autocarro a cantar a altos berros a música "Eye of The Tiger" quando passava na rádio.
Destino: Coimbra, Quinta das Lágrimas.
Hora de partida: 8:30h
Hora de chegada: 18:30h
Durante estas 10 horas, foi como se os pólos se tivessem movimentado gravemente, e esse mesmo movimento alterou subitamente as suas frágeis vidas humanas. Não passavam disso, simples rosados humanos. Um rapaz. Uma Rapariga. Os dezasseis anos de juventude máxima, em que o mundo não importa, nem nós verdadeiramente importamos. O futuro está cada vez mais próximo, mas parece que temos sempre a capacidade de mentalmente afastarmos a responsabilidade um pouco mais para trás. Como que inocentemente, ambos entraram nos seus respectivos autocarros, se sentaram nos bolorentos acentos, colocaram os phones e adormeceram.
Ao acordar, vislumbraram as velhas ruas da baixinha de Coimbra. Estavam na eterna cidade Universitária, onde, ainda que não se lembrassem, fora posto fim ao romance português mais efémero. D. Pedro e D. Inês de Castro. Talvez tenha sido o ambiente, a ligeira brisa que passava por entre as árvores e as fazia tremer, o correr da água pela fonte, mas algo nesse dia os afectou.
Entraram no jardim, comprido e verdejante, acompanhando os seus respectivos grupos de escola, e iniciaram a visita. Enquanto a guia explicava aos desatentos colegas a história da Quinta das Lágrimas, Rita e Rodrigo foram-se deixando ficar para trás. Ainda longe um do outro, mas parece que já eram, agora antes de se conhecerem, comandados pela mesma força gravitacional, eles próprios. Ao chegarem a uma escada que dava para a parte superior do jardim, por onde seguiriam para um almoço carregado de calorias na relva, Rita travou o andamento e deixou-se ficar com os olhos pregados numa pequenina fonte, de pedra cinzenta. Era velha, gasta pelo tempo, mas a água que saía da abertura feita na pedra era límpida e fresca. Como uma marca do passado que se recusa a partir, uma mancha pesada se encontrava no fundo daquela fonte. Rita conseguia sentir o cheiro a sal e ferrugem, Sangue! Um caminho ondulado de sangue, desenhava uns ligeiros rodopios na pedra antiga. Rita sentou-se na beira e divagou com a sua mente, sobre de quem o sangue seria, o que teria acontecido, que situação teria levado aquele sangue derramado. Nunca saberei porquê, mas a teoria que Rita construiu na sua mente, foi a de uma mulher abandonada, deixava só na sua longa vida, que tinha perdido as forças. Se tinha sentado no mesmo local em que ela estava, na mesma posição, com longas vestes e teria cravado um punhal no peito, de modo a ganhar poder da sua vida. Podia ter perdido tudo, mas algo ela ainda tinha. O poder de ditar que ela própria viveria, ou morreria. Rita não sabia se teria sido por orgulho, ou se por cobardia, mas mesmo assim sem hesitar, teria cravado o punhal e morrido, só.
Enquanto Rita divagava o pensamento, Rodrigo caminhava pelo carreiro no meio das flores, arbustos e árvores. Encantado pelo canto dos pássaros e pela imagem do sol a penetrar a imponência das árvores, dava passo a passo, um a seguir ao outro, sem pensar verdadeiramente em nada. Então ouviu uma voz. Mas não era uma voz qualquer, era uma voz límpida, suave, sonhadora. Ouvia-a baixinha, mas perto. Deixou a beleza da paisagem envolvente e baixou o olhar. Vislumbrou de novo o jardim, sem grandes mudanças, a não ser uma rapariga franzina, sentada à beira de uma fonte, ditando palavra atrás de palavra, como se hipnotizada. Dizia, " Eu sabia, no fundo do meu coração, dentro dos meus ossos, na cor dos meus baços olhos, no sangue aflorado da minha pele, que o amor que sentiste por alguém, lhe deu o poder para te quebrar. Quebrar eternamente e irrevogavelmente".
23/04/2010
Filipa Pereira
Já pensaste o que farias quando o mundo chegasse ao auge? Já pensaste o que dirias, como reagirias, como a tua respiração seria alterada, como o pulsar do teu coração seria tão forte na tua cabeça que parecia que poderia rebentar a qualquer momento? Bem, sem um contexto seria difícil responder a estas questões. Portanto eis a história.
Maria Rita é alguém tipicamente medíocre. Não há nada no mundo para que tenho um talento inato. Não sabe dançar, cantar, escrever. Nunca se deu ao trabalho de tentar explorar o mais ínfimo canto da sua mente em busca de algo "fora do normal". Algo porque pudesse ser caracterizada. Vivia num sítio, só.
Rodrigo Menezes, o contrário de Rita. Conhecido pela sua beleza fora do normal, olhos de uma cor dourada, um maxilar fortemente cravado na sua face, que lhe dava um semblante duro e um nariz aquilino. Era de uma família afortunada, com um pai médico e mãe presente em casa, que deu a sua vida pelos filhos. Irmãos igualmente belos e caracterizados pela inteligência superior. Mas algo de estranho se passava no seio daquela família portuguesa. O convívio social, que era de esperar, simplesmente não era. O que pudéssemos pensar, toda a vida que provavelmente estarás a imaginar para ele e seus irmãos, será o oposto da realidade. Sem falar com ninguém, aparte dos irmãos, Rodrigo vagueava pelos corredores amplos e escuros do antigo Liceu, sem olhar para alma alguma. Para onde os seus olhos olhassem, era como se os mesmos trespassassem o corpo com a facilidade de um punhal afiado. Olhava algo mais, um infinito, um futuro próximo crescente na sua mente.
A vida de ambos passou sem grandes preocupações. Habitavam as suas cidades, arrastando-se pelo mundo, sem nada concreto a que se agarrar. Algo em comum nas suas vidas de estudantes, estava prestes a mudar todas as suas vidas. A visita de estudo. Aquele dia venerado por todos os alunos, em que podiam sair da sua cidade para visitar um sítio desconhecido em que o propósito era "aprender", mas que resultava num dia de convívio entre colegas, viagens de autocarro a cantar a altos berros a música "Eye of The Tiger" quando passava na rádio.
Destino: Coimbra, Quinta das Lágrimas.
Hora de partida: 8:30h
Hora de chegada: 18:30h
Durante estas 10 horas, foi como se os pólos se tivessem movimentado gravemente, e esse mesmo movimento alterou subitamente as suas frágeis vidas humanas. Não passavam disso, simples rosados humanos. Um rapaz. Uma Rapariga. Os dezasseis anos de juventude máxima, em que o mundo não importa, nem nós verdadeiramente importamos. O futuro está cada vez mais próximo, mas parece que temos sempre a capacidade de mentalmente afastarmos a responsabilidade um pouco mais para trás. Como que inocentemente, ambos entraram nos seus respectivos autocarros, se sentaram nos bolorentos acentos, colocaram os phones e adormeceram.
Ao acordar, vislumbraram as velhas ruas da baixinha de Coimbra. Estavam na eterna cidade Universitária, onde, ainda que não se lembrassem, fora posto fim ao romance português mais efémero. D. Pedro e D. Inês de Castro. Talvez tenha sido o ambiente, a ligeira brisa que passava por entre as árvores e as fazia tremer, o correr da água pela fonte, mas algo nesse dia os afectou.
Entraram no jardim, comprido e verdejante, acompanhando os seus respectivos grupos de escola, e iniciaram a visita. Enquanto a guia explicava aos desatentos colegas a história da Quinta das Lágrimas, Rita e Rodrigo foram-se deixando ficar para trás. Ainda longe um do outro, mas parece que já eram, agora antes de se conhecerem, comandados pela mesma força gravitacional, eles próprios. Ao chegarem a uma escada que dava para a parte superior do jardim, por onde seguiriam para um almoço carregado de calorias na relva, Rita travou o andamento e deixou-se ficar com os olhos pregados numa pequenina fonte, de pedra cinzenta. Era velha, gasta pelo tempo, mas a água que saía da abertura feita na pedra era límpida e fresca. Como uma marca do passado que se recusa a partir, uma mancha pesada se encontrava no fundo daquela fonte. Rita conseguia sentir o cheiro a sal e ferrugem, Sangue! Um caminho ondulado de sangue, desenhava uns ligeiros rodopios na pedra antiga. Rita sentou-se na beira e divagou com a sua mente, sobre de quem o sangue seria, o que teria acontecido, que situação teria levado aquele sangue derramado. Nunca saberei porquê, mas a teoria que Rita construiu na sua mente, foi a de uma mulher abandonada, deixava só na sua longa vida, que tinha perdido as forças. Se tinha sentado no mesmo local em que ela estava, na mesma posição, com longas vestes e teria cravado um punhal no peito, de modo a ganhar poder da sua vida. Podia ter perdido tudo, mas algo ela ainda tinha. O poder de ditar que ela própria viveria, ou morreria. Rita não sabia se teria sido por orgulho, ou se por cobardia, mas mesmo assim sem hesitar, teria cravado o punhal e morrido, só.
Enquanto Rita divagava o pensamento, Rodrigo caminhava pelo carreiro no meio das flores, arbustos e árvores. Encantado pelo canto dos pássaros e pela imagem do sol a penetrar a imponência das árvores, dava passo a passo, um a seguir ao outro, sem pensar verdadeiramente em nada. Então ouviu uma voz. Mas não era uma voz qualquer, era uma voz límpida, suave, sonhadora. Ouvia-a baixinha, mas perto. Deixou a beleza da paisagem envolvente e baixou o olhar. Vislumbrou de novo o jardim, sem grandes mudanças, a não ser uma rapariga franzina, sentada à beira de uma fonte, ditando palavra atrás de palavra, como se hipnotizada. Dizia, " Eu sabia, no fundo do meu coração, dentro dos meus ossos, na cor dos meus baços olhos, no sangue aflorado da minha pele, que o amor que sentiste por alguém, lhe deu o poder para te quebrar. Quebrar eternamente e irrevogavelmente".
23/04/2010
Filipa Pereira
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